Somos todos especuladores. Sem exceção. Sempre esperamos que os resultados de nossas ações nos deixem em situação melhor do que estávamos anteriormente e isto nos torna basicamente uns especuladores. Mas, curiosamente, é pecado falar em especulação. Pelo menos no Brasil é assim. Se as razões para tanto são culturais, religiosas, emocionais ou sejam lá as que forem , eu não sei. Mas é uma esquizofrenia social sem tamanho. Temos medo, receio, ojeriza e o escambau a quatro em assumir nosso comportamente especulativo. Vamos começar a quebrar este medo, então. Sabe como? Lendo o texto abaixo, publicado tempos atrás no jornal Valor Econômico de 30 de abril de 2009. O texto foi brilhantemente escrito por Ney Carvalho, um ex-corretor da Bolsa. O cara disse tudo e mais um pouco.

“ESPECULAÇÃO, ESPECULADORES

‘O especulador é sórdido, como o economista é notável e o professor, emérito’.

Lorrain Cruse

A epígrafe abre o livro La Spéculation, de 1970, por Lorrain Cruse. E traduz os preconceitos que envolvem atividades materiais do ser humano. O especulador é sempre vilão. E a ganância alegada como motivação maior. Na procura por bodes expiatórios, políticos são mestres em culpar especuladores por infortúnios econômicos.

A repulsa à especulação é versão atual das restrições cristãs ao comércio, ao lucro e à fortuna. Há episódios das Escrituras que confirmam a hipótese. Exemplo é a expulsão dos vendilhões do templo. Simples comerciantes, seguiam costumes da época e levavam produtos para vender nos mercados de centros religiosos, como o Fórum Romano ou o Templo de Jerusalém. Neles se cultuavam deuses, se exercia a justiça e se comerciava. Outro é a visão pela qual “é mais fácil um camelo passar no buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus”. A avareza, definida como cobiça por bens materiais, foi feita pecado capital no século VI. Já usura, empréstimo a juros, era prática condenada pelo catolicismo durante a treva medieval.

Segundo Houaiss, especulação surge no vernáculo no século XV. Deriva do latim speculum, espelho, e o significado o de refletir, pesquisar, investigar. Passando ao mercado, a especulação admitiu, também, atitude ativa, a decisão tomada em função de tais conjecturas.

Ao tempo, Lisboa era o grande empório da Europa, a meio caminho entre o Mediterrâneo e o Mar do Norte. Os judeus representavam 1/4 da população do reino português. Em Lisboa se gestava a revolução comercial moderna: criação das Bolsas e, portanto, o desabrochar da especulação. Em fins de 1496, D. Manoel, o Venturoso, em grave erro estratégico, decretou a expulsão dos judeus, ou sua conversão à fé cristã. Em meio a perseguições, fugas e peripécias do gênero eles abandonaram Portugal e se dirigiram à Holanda, onde firmaram Amsterdam como novo pólo comercial europeu. À medida que descartou financistas e comerciantes, mais do que isso inteligência de negócios e sabedoria milenares, Portugal viu definhar seu poderio, adquirido com as navegações e comércio no século precedente. E a especulação econômica, que financia o progresso, transferiu-se para a Holanda, transformando-a em nova potência naval e financeira. A primeira Bolsa certamente surgiria em Lisboa, não fora a decisão real, fruto de preconceito religioso. Assim também, a especulação afloraria em Lisboa, e não em Amsterdam.

A digressão teve dois objetivos. Primeiro fixar a emergência da especulação, como hoje entendida. Ela nasce com a organização dos mercados em Bolsas, no século XVI. Segundo demonstrar que especulação não é privilégio de indivíduos ou grupos, mas envolve os estados em decisões econômicas. D. Manoel especulou que os judeus não fariam falta a Portugal, e o mergulhou em subdesenvolvimento por cinco séculos.

Apesar de seguir, no estrabismo cristão, vinculada à avareza, pecado da fortuna, a especulação é essência de qualquer atitude econômica. A palavra abrange vários significados. Vamos nos ater aos comerciais e financeiros.

Especulação é a pesquisa que se faz em busca da melhor alternativa econômica, e a decisão seguinte mera conseqüência. Especulação é o cerne da atividade econômica. Trata-se de necessidade de indivíduos, empresas e estados. Em quaisquer negócios visa o crescimento de patrimônios ou, no mínimo, sua proteção. De fato, todo agente econômico é um especulador.

Apesar de ser instituição natural, a especulação traz o estigma da vilania. Trata-se de pecado original que lhe aplicou a cultura ocidental, impregnada dos princípios cristãos. Para fugir ao sinal infamante, os mercados batizaram novo personagem: o investidor, tipo distinto que, também segundo Houaiss, surgiu em nossa língua na década de 1950. Suas decisões seriam fundamentadas, as operações sérias e o timing jamais imediatista. Foi fórmula para transformar especulação em atividade que, hoje, dir-se-ia politicamente correta. É comum ouvir de governantes que investidores são bem vindos e especuladores indesejáveis.

Todos os industriais se dizem investidores. Sempre se alegam homens da economia produtiva, do chão da fábrica, das máquinas e parafusos. No entanto, não mencionam que as ações de suas empresas circulam em Bolsa; que os recebíveis foram vendidos a fundos mútuos; ou que operam hedgings exóticos para se proteger de riscos que cerquem sua atividade.

O sofisma semântico da distinção entre especulador e investidor associa investidor ao bem e especulador ao mal. Usando tal maniqueísmo vastos setores tentam fugir da indigna chaga de especuladores. Mas não deixam de sê-lo. Nenhuma ação econômica está isenta de tal catalogação.

Especula a aposentada, quando troca a poupança por um CDB, em busca de mais rentabilidade. Assim também a dona de casa ao optar entre preço e qualidade de produtos no supermercado. O mesmo faz o pai de família na compra da casa própria, pesando todas as variáveis envolvidas. Especula o dono de botequim ao escolher fornecedores de lingüiça ou cachaça, na expectativa de aceitação pela clientela. E o industrial na busca de insumos que melhor se adaptem ao que vai fabricar. O mesmo impulso move o agricultor ao decidir sobre o que plantar para a safra seguinte. A motivação é análoga: aumentar o resultado econômico ou reduzir possíveis prejuízos.

O mesmo fazem especuladores financeiros ao trocar posições. O objetivo é idêntico. Apenas os movimentos são mais notórios, pois os mercados têm alta visibilidade. As atitudes dos demais agentes estão ocultas nas brumas de cada dia, não são expostas em jornais ou televisão. Mas são especulações.

O prefácio da obra de Lorrain Cruse foi assinado por Hubert Beuve-Méry, fundador do Le Monde. E se inicia por citação ao título do filme de 1952 de André Cayatte: Nous sommes tous des assassins. Beuve-Méry havia compreendido a mensagem do livro de Cruse. Somos todos especuladores.”

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