Escrever “fácil”: esta é a maior demonstração de honestidade intelectual. Escrever “fácil” é escrever simples. E escrever simples é ser simplesmente claro. Escrever de modo claro é uma prova irrefutável e cabal que houve esforço de compreensão,  trabalho de sistematização e capacidade de sintentização; tudo junto. Infelizmente, o que é mais fácil de ver no meio jurídico é a escrita “difícil”. Por mais paradoxal que possa parecer, há grande facilidade para escrever difícil no meio jurídico. Somos treinados assim: para escrever de modo “difícil” e bisonho. Outro dia, estava conversando com um grande e inteligente amigo – o Glauco Martins Guerra (perdoe-me, Glauco, citá-lo sem sua permissão) – e ele mostrou a mesma preocupação com a escrita do meio jurídico. Disse-me que ela está “recheada de adjetivos inúteis” (eu assino embaixo). E o pior é constatar que os estudantes de direito são treinados em livros com escrita empolada, difícil. Resultado: o cara já sai da faculdade arrotando gongorismo nas petições da vida. Ainda bem que isto está mudando. Aos poucos, mas está mudando. Temos hoje grandes livros de excelentes juristas que escrevem fácil, simples e de modo lógico. Fábio Ulhoa Coelho, professor de direito empresarial da PUC/SP, é um grande exemplo. Seus livros de direito comercial e, agora, de direito civil são um primor de logicidade e simplicidade na escrita. Fredie Didier Jr. (UFBA) é outro que escreve fácil, fácil. Humberto Ávila (UFRGS) e Luís Virgílio Afonso da Silva (USP) são outros dois que escrevem fácil e extremamente bem: não à toa, são os que travam atualmente a melhor “batalha” de filosofia do direito sobre a questão dos princípios jurídicos no nosso país.  Mas o propósito deste post era trazer ao conhecimento de vocês uma bela (e antiga) entrevista do excepcional John Searle, filósofo americano e professor na UC Berkeley. Vocês lêem (como ficou isto após a reforma ortográfica deste ano?) a entrevista na íntegra para a Revista Reason aqui. Destaco o seguinte trecho, em que se fala do “obscurantismo terrorista” praticado pelos membros da, digamos, “Al Analfabetos”, uma organização terrorista de filósofos que escrevem difícil, empolado e obscuro e ainda acham que a culpa é de quem não entendeu o que eles escreveram:

“Reason: You’ve debated Richard Rorty and Jacques Derrida. Are they making bad arguments, or are they just being misread?

Searle: With Derrida, you can hardly misread him, because he’s so obscure. Every time you say, ‘He says so and so,’ he always says, ‘You misunderstood me.’ But if you try to figure out the correct interpretation, then that’s not so easy. I once said this to Michel Foucault, who was more hostile to Derrida even than I am, and Foucault said that Derrida practiced the method of obscurantisme terroriste (terrorism of obscurantism). We were speaking French. And I said, ‘What the hell do you mean by that?’ And he said, ‘He writes so obscurely you can’t tell what he’s saying, that’s the obscurantism part, and then when you criticize him, he can always say, ‘You didn’t understand me; you’re an idiot.’ That’s the terrorism part.’ And I like that. So I wrote an article about Derrida. I asked Michel if it was OK if I quoted that passage, and he said yes.”

 

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