Não há dúvidas de que a história da sociedade por ações é a história do capitalismo. A história de uma é contada pela do outro. E, sinceramente, não há algo mais fascinante que descobrir por qual motivo as pessoas resolvem arriscar parcelas do patrimônio, do tempo pessoal e da capacidade de trabalho em empreendimentos econômicos. O apetite por risco acaba sendo o grande mistério humano e, por isto mesmo, exerce grande fascínio. Até hoje não vi uma explicação convincente sobre a razão pela qual os seres humanos sentem tanto “tesão” pelo risco. Sei que a inexistência desta explicação pode ser só desconhecimento da minha parte (e é bem capaz que seja), mas é inegável que sentimos mais atração pela história do cidadão que resolve, por exemplo, desafiar a morte pilotando um bólido minúsculo a mais de 300 Km/h num circuito espremido por muros que pela vida de um indivíduo que a leva de forma pacata na roça, dando milhos pras galinhas e tocando o gado pro curral toda manhã. Temos mais curiosidade pela história do sujeito que começou vendendo de porta e porta e, após algum tempo, virou dono de um império econômico que pela vida do sujeito pacato que todo o dia bate o ponto às 8h e sai às 18h e vai levando a vida de modo miseravelmente comum e sem percalços. E aposto todas as minhas fichas que você, se tiver entre 30 a 40 anos, deve se lembrar muito mais do filme “Curtindo a Vida Adoidado” (Ferris Bueller’s Day Off), em que o personagem principal corre todos os riscos para matar aula e passar um dia inteiro se divertindo com a namorada e o amigo bobão, que de um filme qualquer em tom piegas e sem, digamos, “emoção”. Pois é: o apetite pelo desafio torna a empreitada humana mais saborosa e prazerosa. Esta consciência racional dos resultados adversos que podem eventualmente advir de nossas condutas e o desejo de correr riscos são os elementos essenciais para o homem na difícil tarefa diária de administrar tempo e obter dinheiro (dois recursos sabidamente limitados). Talvez por isso o homem seja essencialmente “arisco” do ponto de vista econômico: temos consciência dos riscos que poderão surgir se não administrarmos os recursos escassos com sabedoria, mas, mesmo diante deste dilema, temos na maioria das vezes desejo ou intenção de correr estes riscos. O espírito animal presente no ser humano é o de “arriscar”. Não à toa o ditado mais sábio que ouvimos ao longo de nossas vidas é o clássico “quem não arrisca, não petisca”. Talvez nosso cérebro seja geneticamente desenhado para apurar desafios e o software moral de nossa espécie esteja programado para que os enfrentemos com coragem e sem maiores rodeios; talvez. Mas a intenção deste post era mostrar o que o apetite humano por risco fez há uns 400 anos. Naquela época, seres humanos se uniram para realizar trocas econômicas em locais distantes de suas casas. Lançaram-se numa empreitada extremamente arriscada, num território desconhecido, habitado por gente que não falava a mesma língua, embora se entendessem na hora da troca econômica. Foi neste cenário que surgiram as sociedades por ações. No mesmo momento, aliás, em que o capitalismo começou a ganhar corpo. Aliás, suponho que as sociedades por ações foram essenciais para a supremacia do capitalismo como modelo sócio-econômico. Foram as sociedades por ações que permitiram a consolidação definitiva do capitalismo. Se os outros tipos societários (menos a sociedade limitada, que só surgiu no final do Séc. XIX) foram importantes na estruturação das trocas econômicas na Europa e na formação de uma grande classe social burguesa que vivia do comércio e de serviços financeiros, as sociedades por ações foram essenciais para implantar o capitalismo de uma vez por todas. Curiosamente, a Revolução Industrial inglesa (que muito consideram o marco inicial do capitalismo moderno) aconteceu uns 100 anos depois (que não é nada em termos históricos) de duas grandes sociedades por ações que permitiram grande acumulação de capital: a Companhia Inglesa das Índias Orientais (1600) e a Companhia Holandesa das Índias Orientais (1602). Num post futuro, veremos mais sobre a história das sociedades por ações (inclusive as que vigeram no Brasil colônia). E vocês ficam agora com um site que descobri faz um tempo contendo os estatutos da Companhia Holandesa das Índias Orientais (aqui): as, pronunciem se forem capazes, Verenigde Oost-indische Compagnie.  

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