Não se pode negar o valor do método. Mas tenho imensas dificuldades de tomá-lo como a própria ciência. O próprio conceito de ciência merece alguma reprovação. Se tradicionalmente ciência é articulação do até então inarticulado, há produção. Poesia também é produção, só que com emoção. Não precisamos do método, pois, para produção. O novo pode advir dele ou não. O indizível pode ser traduzido com o método ou não. Em ambos os casos, há língua em expansão. Qual dos dois é mais importante para a civilização? Não sei. Não me atrevo a responder isso. O certo é, em tempos de textos com 140 caracteres que dizem muito mais que tratados, o método vem sendo revigorado na caracterização da ciência. Ainda que muito da ciência se torne arrogantemente soberba e sem qualquer pretensão de tornar-se conhecimento comum, o método é relativamente valioso na obtenção de resultados confiáveis.

No caso do direito, o valor do método tradicionalmente normativo pode ser submetido a testes de resiliência com a aplicação de outros métodos. O método normativo usual é um modo de ver as coisas; existem outros. A realidade – que é efetivamente do que o direito trata com pretensão conformadora – é variada e também impõe ao direito uma multiplicidade de instrumentos cognitivos metodológicos. Por isso, creio que a interdisciplinaridade cumpre um papel importante na análise e definição das normas jurídicas abstratas e dos institutos jurídicos.  O ter ares interdisciplinar significa somente que há determinados espaços cognitivos para os quais o direito inegavelmente precisa do auxílio de outras disciplinas científicas para a construção de um significado ou mesmo para verificação da regularidade da resposta jurídica. As ficções que permeiam praticamente todo o sistema jurídico implicam a existência de pressupostos reais, do mundo dos fatos (como habitualmente se diz), para os quais o direito, por não ser idôneo em dar uma resposta pronta e acabada ao empirismo que ali se apresenta em razão do método normativo que lhe é próprio, não pode abdicar do auxílio de outras ciências na investigação, detecção, compreensão, mensuração e construção do significado e da utilidade prática. Por isso que a validade e utilidade do argumento jurídico dependerão sempre e necessariamente da verdade das justificativas (proposições) extrajurídicas que lhe dão suporte. É aqui que o direito precisará da cooperação interdisciplinar. Sem este cooperação, o direito se resumirá a uma argumentação submetida, no máximo, a escrutínios lógicos. Sem a experiência metodológica de outras ciências, a argumentação jurídica pouco terá para fazer em matéria de distinguir a verdade da falsidade. A argumentação jurídica, assim como a lógica aplicada ao direito, terão muito pouco a dizer se as proposições com as quais trabalham são a mais pura verdade ou a mais louca ilusão: ela se tornará um argumento imprudente. E mesmo que a lógica venha em ajuda ao direito para nos dizer se tal conclusão apresentada num contexto argumentativo resulta precisamente ou não daquelas premissas, permitindo-nos diferenciar nitidamente os argumentos válidos das falácias, isto ainda é metodologicamente muito pouco para as intensas consequências que a aplicação do direito gera sobre a liberdade, as tradições, o patrimônio e a vida das pessoas.

Por isso, múltiplas ferramentas metodológicas são necessárias para o direito.

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